quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Intersetorialidade: abismos entre o discurso e a prática avançada

O discurso da intersetorialidade tem encontrado eco no discurso de várias lideranças políticas, movimentos sociais e gestores públicos. Mesmo que não se use essa expressão, ela aparece de forma subliminar em vários documentos da própria prefeitura de Brumadinho. Dando continuidade a uma série de escritos que pretendem contribuir para o debate e a construção de propostas de governo na disputa eleitoral pelo poder municipal na cidade, o presente artigo se propõe a discutir a intersetorialidade, suas possibilidades e seus dramas e tramas na gestão pública local.

Um dos últimos jornais da prefeitura fala a todo momento em parcerias e articulações com organizações não-governamentais e empresas na oferta de serviços públicos. Esse informativo mais parece uma peça publicitária, com informação em excesso, elogios rasgados à atual gestão e poucos dados que contribuam consistentemente para formação cidadã da população, visto que só discute boas ações e não os problemas, desafios e a realidade concreta de muitos dos supostos grandes projetos desenvolvidos.

Intersetorialidade pode ser entendida em duas dimensões diferentes. A primeira delas originalmente nasceu das discussões sobre a reforma do Estado e as estratégias para tornar a máquina pública mais eficiente, eficaz e efetiva na provisão de políticas públicas. Nessa esfera, intersetorialidade significa articular diferentes órgãos e áreas do governo, de forma a desenvolverem uma atuação integral e complementar nos serviços que oferecem à população. Seria uma tentativa de gastar menos recursos, focalizar esforços e gerar resultados consistentes. Um exemplo poderia ser o desenvolvimento de ações integradas das secretarias de transportes, meio ambiente e obras, a partir de equipes multidisciplinares e com profissionais de diferentes áreas, com vistas a oferecer soluções nesses três campos simultaneamente.

Uma pergunta que não quer calar sobre esse tipo de intersetorialidade na gestão da prefeitura de Brumadinho é até que ponto sua existência é concreta e, sendo concreta, até que ponto funciona. Os que afirmam que as normas legais de gestão de pessoas no poder público não facilitam ou até mesmo impedem a intersetorialidade desconhecem a legislação a fundo e tentam escamotear o maior problema dessa perspectiva de intersetorialidade: a vontade política de colocar equipes com formações diferentes para dialogar e implementar não só no papel, mas na prática, ações que sejam efetivamente articuladas. Enquanto isso, Brumadinho vai perdendo o bonde da história na educação, na saúde e na cultura, para não falar do meio ambiente, dos transportes e do desenvolvimento sustentável. Se um município do tamanho de Brumadinho, com um corpo funcional concursado infinitamente menor frente ao do governo federal não consegue implementar políticas de intersetorialidade, estados e países poderiam desistir dessa idéia. Mas não é bem isso que acontece pelo mundo afora, inclusive em vários casos no Brasil.

Outra noção de intersetorialidade diz respeito à articulação entre os chamados três setores: primeiro (Estado), segundo (empresas) e terceiro (organizações não-governamentais e da sociedade civil). Essa perspectiva, mais recente, encontra ecos em vários discursos pró democratização profunda do governo, co-responsabilização de empresas e instituições da sociedade na solução dos problemas socioambientais e uso mais eficiente de recursos públicos e privados para a coletividade. Os desafios dessa dimensão de intersetorialidade são muitos e na maioria das vezes ficam encobertos no discurso oficial que só vê o lado positivo de se realizar projetos em parcerias com empresas e ONGs em Brumadinho.

Quando faltam ao Estado programas e projetos sólidos, bem planejados e com objetivos cívicos claros, a intersetorialidade pode servir para encobertar várias malezas e produzir outras mais. Obter recursos de empresas e aplicá-los em projetos sociais pode servir para desviar a atenção da população quanto ao gasto perdulário e incompetente de recursos públicos por parte da prefeitura. Pode também resultar na captura da democracia e na imposição de projetos de empresas poderosas e ONGs de grande porte sobre os anseios da população.

Infelizmente, não só a boa intersetorialidade (na sua segunda dimensão) está acontecendo em Brumadinho. Junto com ela vêm projetos pré-formatados de grandes empresas e ONGs poderosas, que afirmam beneficiar a população. O poder municipal, que como representante eleito da população deveria zelar pelos interesses do município, parece estar pouco disposto e comprometido com isso. O que poderia ser construir junto, vira construir para. Essa pequena diferença é essencial. O resultado final é um jornal propagandístico da prefeitura cheio de belas fotos, mas talvez nem tanto de belos fatos. E a democracia vai ruindo. Os candidatos ao cargo de cacique municipal máximo, tão cobiçado por tantos, deveriam ter respostas consistentes a esses desafios. Mas será que terão? Fazer um município diferente e próspero não é tão difícil quanto parece, ainda mais com o orçamento, os recursos humanos e as riquezas naturais de que dispõe Brumadinho. A intersetorialidade pode ser ajudar a encontrar esse caminho virtuoso, mas desde que pensada como estratégia de governo e não como ação oportunística para dar visibilidade publicitária às vésperas das eleições que se aproximam.

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. Intersetorialidade: abismos entre o discurso e a prática avançada. Circuito Notícias, Brumadinho, p. 2 - 2, 31 out. 2007.

Cultura e Desenvolvimento: óbvios improváveis sobre o Instituto Cultural Inhotim e a alma de Brumadinho

Dizer que a cultura é central no desenvolvimento dos povos tornou-se lugar comum. Dificilmente se encontra algum político, gestor governamental, liderança comunitária, artista ou empresário que neguem essa idéia. No entanto, o óbvio não é tão provável assim quando se analisa tanto as formas de convivência que se estabelecem na sociedade contemporânea, quanto as práticas concretas de resgate da cultura e da diversidade entre os povos.

Comum também é ouvir a lamúria recorrente de que o povo brasileiro não é afeito à cultura, enquanto do outro lado da pirâmide social os supostos “sem cultura” vêem com desconfiança a alta cultura e se entregam aos ufanismos de uma cultura de massas que apela para os ícones da brasilidade. Em Brumadinho, entre o deslumbre paralisante de uns, o entusiasmo principiante de outros tantos e a desconfiança invejosa e inferiorizada de muitos, o Instituto Cultural Inhotim é visto ora como ilha de cultura rodeada de aridez cultural, ora como ícone daquilo que Brumadinho teria se tornado, um município no qual a cultura tem papel central no viver. No cerne desse debate está o lugar da cultura na alma de Brumadinho.

Já faz algumas décadas que organismos internacionais como a UNESCO e o Banco Mundial reconhecem o papel central da cultura na melhoria da qualidade de vida, na promoção da inclusão social, no combate à pobreza e também na proteção ao meio ambiente. Mas, como indaga o economista Amartya Sen, ganhador do prêmio Nobel de economia e um dos maiores especialistas em desenvolvimento no mundo, até que ponto a tão idealizada diversidade cultural é colocada concretamente em ação no desenvolvimento? Conceber o desenvolvimento dos povos a partir da cultura, como defende o economista Ignacy Sachs, é reconhecer as soluções endógenas aos dramas e tramas de sustentar a vida no planeta, ou seja, entender que cada povo, cultura e estilo de vida local podem e devem encontrar seus caminhos para os desafios da exclusão social, autoritarismo político e degradação ambiental.

O Instituto Cultural Inhotim parece ter se tornado motivo de orgulho no discurso de muitos brumadinenses, mesmo que pouco tenham tido contato com o projeto de construção do museu. No entanto, esse sentimento pode levar alguns a menosprezarem outras formas de expressão cultural na cidade, sobretudo as vindas dos considerados pobres, inferiores e periféricos. Cabe aqui a lembrança do grande líder indígena brasileiro, Marcos Terena: “não ser moderno, não ser desenvolvido, não significa ser culturalmente ou intelectualmente pobre”. A cultura pode estar nas raízes da tradição popular, bem como nos corações e mentes dos mais altos transgressores do tradicionalismo, sem necessariamente freqüentar os salões da alta cultura.

Um dos graves problemas que envolvem a cultura na sociedade contemporânea é que tudo, realmente tudo, pode ser entendido como cultura, ao mesmo tempo em que isso pode resultar em absolutamente nada em termos de vivência da cultura. Cooperativas artesanais são consideradas cultura, o modo de se fazer política no Brasil é explicado pela tradição cultural, as vendas milionárias de bandas de axé são vistas como expressão da rica diversidade cultural brasileira, a moda assume status de cultura e por aí vai. Mas será que todas essas manifestações realmente constituem a cultura? E se constituem, qual o impacto disso na tão celebrada e idealizada cultura como eixo central da vida social? Na verdade, todas essas práticas são e não são cultura simultaneamente.

Um primeiro aspecto a ser considerado para se compreender esse paradoxo é perceber a cultura como um dos direitos que constituem a cidadania. Nesse sentido, a cultura tem um fim em si mesma e não precisa ser concebida como um caminho para se atingir outras metas sociais, também relevantes. Sem querer negar o papel da cultura na promoção da educação emancipadora, do exercício avançado da cidadania, do fortalecimento dos laços de pertencimento e solidariedade entre os indivíduos e de soluções para vários outros problemas da sociedade, cabe refletir sobre a cultura como um elemento vital para a existência dos indivíduos e das sociedades. Como sintetiza brilhantemente o cineasta Wim Wenders, “a cultura dá alma”. Para ele, essa alma não vem da economia, tampouco da política, mas sim da cultura. Nesse sentido, o Instituto Cultural Inhotim tem valor por si mesmo, independentemente do que traga de benefícios para a cidade.

Mas a política pode e deve fazer muito pela cultura. Uma dúvida que aparece é até que ponto os gestores municipais fizeram e fazem algo pela cultura em Brumadinho. O Instituto Cultural Inhotim, bem como os projetos culturais da Vale, parecem ter empurrado contra a parede os tecnocratas do município, que se viram obrigados a fazer algo pela cultura, diante das involuntárias pressões externas. Isso, como muitos dos fenômenos da cultura, é ruim e bom ao mesmo tempo. Por um lado, evidencia o imobilismo e a postura reativa da prefeitura e por outro faz algo acontecer na cultura da cidade, ainda que de forma exógena e estranha à dinâmica local, como parece acontecer com o menosprezo sistemático a alguns personagens importantes da história cultural da cidade por parte das lideranças políticas no poder.

Mas uma dúvida perdura: se a cultura está no centro de tudo e não a economia e a política, porque na esfera do mercado a cultura é posta na periferia e não no centro? Novamente, os defensores da cultura como geradora de emprego e renda vão dizer que não se pode esquecer o papel das atividades de produção e recepção cultural na dinamização da economia. Isso é uma verdade que muitos ainda insistem em não perceber, basta analisar os dados sobre a economia da cidade do Rio de Janeiro, cujo maior vetor dinâmico reside na indústria cultural. Aqui, se enuncia outra dúvida, quais os impactos do Instituto Cultural Inhotim na geração de emprego e renda no município? E dos outros projetos culturais no município? No entanto, seria um grave erro julgá-los somente pelo que geram de emprego e renda, ainda que haja fortes indícios de que isso é o que mais seduz vários burocratas municipais com pouca afinidade com a cultura.

Para Adorno e Horkheimer, pensadores da Escola de Frankfurt, um dos grandes problemas da vida contemporânea não é deixar de colocar a cultura no centro, mas é justamente colocá-la nesse centro, desfigurando a sua própria essência como campo da vida e tornando-a mais um item da lógica mercantil. O mercado capitalista teria se tornado o centro da vida social, turbilhonando e transformando tudo em produto e rentabilidade. Não é por menos que, caso se indague às pessoas no cotidiano sobre quais são os grandes artistas brasileiros, várias vão citar campões de vendas de músicas, livros, filmes, ... Mas quem disse que ser campeão de vendas é viver a cultura? Como no esporte em tempos de mercantilização, o ideal de dignidade em competir de Pierre de Coubertin dá lugar ao de vencer. O ideal de fazer a arte pela arte dá lugar à meta de ganhar muito dinheiro e bater recordes de cifras. Também não é o caso de negar a importância de se viver da cultura, recebendo remuneração digna e conseguindo expor suas obras. Conforme atesta Pierre Bourdieu, um dos avanços da sociedade capitalista foi dotar também os artistas da condição de livres trabalhadores. Mas isso tem um custo, que pode ser o de transformar a cultura em meio e não em fim em si mesma.

Nesse universo da cultura como meio, pequenas, lentas e sutis formas de transformar a produção cultural em uma indústria de mercadorias vão se instalando. Assim, o público-alvo vira cliente, a opinião pública se transforma em indicador de qualidade e as platéias lotadas são vistas como sinal de democratização da cultura. Tudo isso em nome das melhores intenções de viabilizar mostras, materializar projetos, publicar, ... Mas o que dizer da arte transgressora, que também alimenta a alma? O que dizer da obra que incomoda e leva as platéias não à diversão, mas à catarse, à sensação de deslocamento? A arte e a cultura se prestam ao entretenimento, mas não se resumem e não podem se resumir a ele, sob pena de sucumbirem.

Por outro lado, não cabe falar de cultura nas lamúrias típicas do saudosismo tradicionalista e do medo catastrofista da hegemonia dos mercados. A tão citada e tão pouco compreendida globalização não é somente o incremento de transações comerciais, mas também do reconhecimento de outras culturas e modos de vida, mas não da forma superficial e fugidia que se manifesta, por exemplo, no chamado turismo cultural. O filósofo esloveno Slavoj Zizek mostra que nesse mundo de múltiplas culturas, os turistas querem contatar outras culturas, mas sem interagir efetivamente com elas. Querem assistir a um espetáculo de dança do ventre, por exemplo, mas sem levar o pacote completo da cultura em alguns países islâmicos, que passa pela dominação masculina e pela repressão brutal à liberdade sexual. Sendo assim, antes de se deixar impressionar pelo grande fluxo de pessoas ao Instituto Cultural Inhotim, deve-se pensar em como esses turistas culturais interagem com o museu e seu entorno. Infelizmente, com um ar de inveja paulistana, algumas análises sobre o Instituto Cultural Inhotim na Folha de São Paulo denotam o completo desconhecimento da cultura e da realidade brumadinense, afirmando que uma ilha de arte moderna está rodeada de miséria. Miséria, na visão de Sen, Morin, Sachs e uma série de outros que discutem desenvolvimento não se resume a pobreza. Pode haver pobreza no entorno do Instituto Cultural Inhotim, mas não necessariamente miséria, sobretudo a miséria da alma de que tanto fala Emile Zola.

Reconhecer a diversidade cultural implica em alteridade, capacidade de se colocar no lugar do outro, ou melhor, parafraseando Wim Wenders, se colocar na alma do outro. Com isso, se reconhece o caráter único de cada cultura, mas ao mesmo tempo se assume a igualdade entre os povos. Como destaca o pensador francês Edgar Morin, viver a diversidade cultural não é estacionar as culturas em torno de si mesmas, alimentando o sonho grandiloquente de se pertencer a uma cultura superior, mas é reconhecer a igualdade de condições perante a heterogeneidade, pois a própria idéia de diversidade não implica em hierarquização. Assim, não basta promover apenas o encontro entre diferentes tradições culturais, que muitas vezes aparentam vitalidade cultural, mas na verdade podem não dialogar e se descobrir uma na outra. O que é urgente se pensar sobre a presença do Instituto Cultural Inhotim na cidade, fugindo das visões esteriotipadas citadas antes, é até que o ponto o Instituto Cultural Inhotim dá alma a Brumadinho e até que ponto Brumadinho dá alma ao Instituto Cultural Inhotim.

Assim, a virtude cultural pode estar dentro dos portões do Instituto Cultural Inhotim, bem como fora deles, ao mesmo tempo que pode não estar em lugar algum. É hora de se aventurar nessas descobertas sem complexo de inferioridade, nem tampouco ufanismo com a grandiosidade das obras do museu. E o melhor de tudo é que a cultura pode estar bem no cerne da alma de Brumadinho, quer seja em uma folia de reis, nos fuscas coloridos do museu ou na centenária banda de música. Cada um ao seu modo e com seu lirismo próprio parecem convidar a todos para essas descobertas, ecoando outra máxima de Wim Wenders: “Os prodígios de todas as artes não residem no explícito, mas nas entrelinhas!” É esse o Instituto Cultural Inhotim e a Brumadinho que ainda estão por ser descobertos.

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. Cultura e desenvolvimento: óbvios improváveis sobre o Inhotim e a alma de Brumadinho. In: Circuito Notícias, ano 13, no. 158, 02/08/2007, pp. 6.

O corpo sob o sol: dominação, exclusão e espetáculo

O tema deste artigo estava em suspenso há algum tempo. Já faz alguns meses desde que, pulando de um canal para outro na televisão a cabo, o olhar se fixou numa imagem insólita: corpos nus, sujos, maculados pela fome e pelo sol, eram carregados por outra coleção de corpos; esses viris, fortes, moldados pela mais perfeita disciplina da atividade física, que só a riqueza pode proporcionar. Em comum, tinham o fato de serem humanos e estarem nus ou seminus. O cenário de fundo é uma praia espanhola. Os figurantes desse holocausto pós-moderno são imigrantes clandestinos africanos, que se lançam ao mar em navios e viagens precárias, como alguns portugueses e espanhóis fizeram séculos antes, alimentados pelo sonho de encontrar o sonho dourado. O restante dos componentes, figurantes secundários, ocupavam nas câmeras das redes televisas globaiso espaço central: turistas europeus de férias nas cálidas praias espanholas. A miséria e as máculas dos africanos, traduzidas em seus corpos frágeis, pareciam apenas compor o cenário. No centro, os depoimentos dos solidários turistas que, tendo sido interrompidos abruptamente de seu gozo de férias, foram obrigados a se encontrar com o lado obscuro de suas sociedades: o trabalho precário, miserável e servil, que possibilita o conforto da próspera sociedade dos países desenvolvidos do velho continente.

Não sobram narrativas artísticas que denunciam o lado perverso das sociedades afluentes, até mesmo na paradigmática e teoricamente exemplar Alemanha, berço do movimento verde e da responsabilidade social. Gunter Wallarff, no premiado livro “Cabeça de Turco: uma viagem aos porões da sociedade alemã”, já havia denunciado há décadas as contradições do sonho europeu, que explora imigrantes e outras etnias. Mais recentemente, o também marcante “Coisas Belas e Sujas”, filme de Stephen Frears, desmascara o próprio corpo como mercadoria nos subterrâneos do comércio de órgãos na civilizada Londres.

É naquilo que parece não ter conexões diretas com a dominação e a pobreza, fora a de externalizar as misérias humanas, que este artigo se concentra: o corpo humano. Com o filósofo Michael Foucault, os estudos sobre poder ganham nova perspectiva. Ao eleger o corpo como objeto de análise, o pensador francês consegue ultrapassar a análise freudiana do desejo, demonstrando em sua “microfísica” do poder que a dominação não se concentra apenas nas estruturas institucionais e nos gabinetes dos totalitários. O totalitarismo se espraia por todas as esferas da sociedade, construindo uma teia no qual dominador e dominado tecem um enredo perverso, convertendo e invertendo papéis de controle em múltiplas e infinitas direções. Dominadores são dominados e desempoderados reverberam o totalitarismo sobre outros desempoderados, ao mesmo tempo em que quem manda domina e quem se deixa dominar é mandado.

O corpo em Foucault é objeto e reflexo direto da chamada “docilização”, fenômeno paradoxal e contraditório, pois ao mesmo tempo que parece potencializar os poderes e capacidades corpóreos, submete o próprio corpo a uma disciplina externa e impositiva a ele. A história da modernização seria também a história do corpo humano, carregando seus dilemas e encruzilhadas. Se na Idade Média o bom soldado era o bravo, corajoso e destemido guerreiro, no início da Era Moderna a capacidade mortífera do soldado já havia se multiplicado imensamente, não só pelos novos equipamentos de guerra, mas também pelo treinamento metódico, organizado e eficiente com base nas técnicas de matar. O guerreiro ideal agora é disciplinado, organizado, marchando alinhado com outros corpos, compondo um balé linear, que parece ter alcançado seu ápice nos desfiles de tropas nazistas e nas celebrações esportivas de massa na sociedade hitlerista. No cinema, uma cena exemplar dessa diferença definitiva é o embate entre os sujos, desorganizados e desordeiros escoceses contra os perfilados, alinhados e bem treinados soldados ingleses na aventura sanguinária de “Coração Valente”, cujo protagonista é Mel Gibson. Nada a se estranhar diante do fato desse mesmo ator americano reconstruir sua versão da história de Cristo com muito sofrimento e sangramento do corpo: tudo vira suco no caldeirão hollywoodiano.

A “docilização” dos corpos não se restringe à guerra, mas alcança o trabalho humano, sobretudo nas fábricas de produção em massa (fordistas e tayloristas) e no próprio esporte. O futebol, uma das instituições mais importantes da identidade brasileira, também replica esse fenômeno. Quem nunca ouviu ou se envolveu em um debate sobre a perda do romantismo e de uma certa ingenuidade em jogar futebol dos anos de tricampeonato, que deu lugar à objetividade, rigor físico e disciplina dos supercraques brasileiros da atualidade? Nesse turbilhão, Garrincha representa o saudosismo de uma era na qual o talento e a criatividade vinham antes da técnica, da disciplina e da eficiência.

Na sociedade do “malhar ou morrer”, o corpo se torna objeto central da dominação e amplia a “docilização” para o lazer e o entretenimento. Exercitar-se, antes de ser mais uma das atividades da vida, associada a um jeito de viver mais integral, torna-se um fim em si mesmo, tendo como objeto o corpo, sempre possível de ser melhor emoldurado e ter sua potência amplificada. Com o barateamento e a conseqüente popularização das cirurgias estéticas, bem como das utopias mirabolantes de eternização corporal da biotecnologia, o corpo deixa de ser destino e passa a ser projeto sempre inacabado. Nem os maiores hedonistas gregos poderiam sonhar com tamanho delírio biotecnológico. Além do confinamento da subjetividade no deserto do empírico, significados e significantes passam a girar em espiral empenado. O resultado é a esquizofrenia e falta de senso que verseja em corações e mentes na contemporaneidade.

Porém, a dominação dos corpos não se dá deslocada das estruturas de exploração e miserabilidade das sociedades. Aos africanos salvos na praia, depois de uma longa viagem nos modernos “navios negreiros”, resta a misericórdia dos corpos esculturais dos banhistas europeus. Depois disso, caso consigam fugir dos esquemas anti-imigração, resta a “cruz ou a calderinha”: vender seu trabalho a preços e condições miseráveis, esgotando paulatinamente a energia vital de seus corpos, ou comercializar seus próprios órgãos para corpos pretensamente superiores, empoderados e ricos. Esses corpos sim, vão tentar o sonho de serem eternos, sem nem saber que parte deles pode ter vindo dos corpos miseráveis daqueles mesmos africanos.

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. O corpo sob o sol: dominação, exclusão e espetáculo. In: Circuito Notícias. Brumadinho: Circuito Notícias, ano 13, edição 156, 04/07/2007, p. 2.

A Inteligência e a Gestão

O mundo moderno, quase que invisivelmente, tem capitulado diante de um movimento, consciente e inconscientemente construído e difundido por indivíduos e instituições, que surgiu com a melhor das intenções: dar um caráter mais livre e pragmático aos projetos de desenvolvimento da sociedade e de seus membros. Tal perspectiva é chamada de Gerencialismo e se instalou com mais intensidade em diferentes formas de exercício do poder a partir da chegada ao comando da sociedade dos defensores do neoliberalismo econômico. Expoentes políticos desse pensamento foram Ronald Reagan e Margaret Tatcher, alçados ao governo dos EUA e da Inglaterra no final dos anos 70.

O ideário neoliberal, com seu verdadeiro credo defensor do estado mínimo e da defesa de liberdades incondicionais frente aos controles governamentais, trouxe também o sonho de um gerenciamento mais avançado e efetivo tanto das empresas, quanto dos governos, dos movimentos sociais e das próprias organizações não-governamentais. A partir daí, a gestão, que sempre foi um meio ou recurso técnico desenvolvido pela sociedade para atingir seus objetivos, começa a se tornar gradativamente um fim em si mesmo. Como argumenta o professor sloveno Slavoj Zizek, no mundo contemporâneo a gestão passa a permear todas as esferas da vida em sociedade e tudo se transforma apenas em uma questão de desenvolver boas práticas e técnicas gerenciais. A criatura passa a devorar o criador: a sociedade que criou a gestão para buscar o “bem viver”, como diriam os gregos antigos, agora se vê escravizada por ela, tendo seus sonhos dominados pelo profetismo pragmático gerencialista. Apenas sonhar talvez não seja o caminho para se efetivamente transformar a vida em sociedade. No entanto, realismo extremado pode levar a se perder a capacidade de transcendência e emancipação humana, capitulada diante dos graves problemas do mundo.

Não é de causar espanto que tecnocratas do gerenciamento afirmem com naturalidade que a boa gestão, entendida como uma atividade eminentemente apolítica e científica, deva ser aplicada a todas as formas de vida em sociedade, inclusive na esfera íntima. Exemplos desses devaneios gerencialistas podem ser encontrados tanto no professor de Administração que acredita que técnicas de orçamento empresarial precisam ser aplicadas na vida familiar, quanto nos profissionais de recursos humanos que defendem o planejamento da vida profissional e a formação de redes de contatos ou no consultor de gestão que acredita que namoros, casamentos e brigas seriam melhor equacionados através de estratégias de negociação comerciais.

Alguém pode estar se perguntando se isso realmente existe ou, caso exista, seja levado a sério. Infelizmente, bom senso é algo que anda em falta no universo da gestão. Os primeiros a comprar essas idéias, palestras, livros e consultorias são os próprios senhores do gerenciamento contemporâneo: os grandes executivos de empresas privadas, os alto-gerentes governamentais e os líderes de grandes organizações não-governamentais. Isso é o que levou o sociólogo francês Pierre Bourdieu, em palestra dirigida a homens de negócios do setor de mídia, a indagar: “Senhores do mundo, vocês têm domínio do seu domínio?”. O fenômeno é tão sério e preocupante, que dois jornalistas da prestigiosa revista The Economist, especializada em negócios, criaram a expressão “Indústria de Teorias da Administração”, que na sua versão tupiniquim foi chamada pelo professor Tomaz Wood Jr. de “Pop Management” (“Gerenciamento Pop”).

Independente do grau de maturidade profissional e de adesão inconsciente ou conscientemente mal intencionada à essa indústria de macaquices gerenciais, os impactos sobre o imaginário social são grandes. O espaço da vida em sociedade vai cedendo lugar lentamente à perspectiva do mercado, a emoção e as utopias vão dando lugar ao pragmatismo, as amizades vão se transformando em contatos para fins profissionais e as realizações tornam-se apenas uma questão de métrica entre o que se detém de recursos, principalmente financeiros, e aquilo que se pode fazer.

O problema é que as grandes conquistas da humanidade foram feitas por homens que colocaram a inteligência à frente da gestão e não o contrário. Foram eles que quebraram paradigmas e pensamentos arraigados e mostraram ao mundo a importância de se sonhar para além do tamanho da extensão do passo humano. Infelizmente, os gerencialistas querem transformar tudo em boa gestão, inclusive o exercício da política, ou melhor, do bom governo, como diria Maquiavel. Mas as utopias não morrem, nem se deixam acorrentar pelo pragmatismo gerencialista. Para fechar, apenas um bom exemplo disso. Zilda Arns, líder da Pastoral da Criança no Brasil, tem conseguido combater com efetividade o grave problema da desnutrição infantil utilizando poucos recursos financeiros e colaboradores sem grande qualificação formal, além de tecnologias artesanais (soro caseiro). Esse é um exemplo vivo de que, caso a sociedade e os indivíduos se fiassem somente no mantra gerencialista, esse grave problema social brasileiro talvez não caminhasse para a extinção de forma tão simples, criativa e efetiva.

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. A inteligência e a gestão. In: Circuito Notícias, ano 13, 01/2007, p. 2.

Entre Tragos e Baforadas: a cortina de fumaça que paira sobre a irresponsabilidade socioambiental da indústria do fumo

Nos anos 50 e 60 nos Estados Unidos, a ainda hoje poderosa indústria do fumo americana tinha a audácia de veicular propagandas com jovens e adolescentes fumando e com a mensagem (implícita e às vezes explícita) de que cigarros mentolados traziam bom hálito e que, portanto, seriam bons para a saúde.

Nas décadas subseqüentes, uma luta intensa e, muitas vezes desleal, entre associações médicas e grupos de afetados pelos males do fumo versus a indústria do fumo, colocou no centro dos debates os impactos negativos do cigarro para o corpo humano, sobretudo sua contribuição para o câncer de pulmão. Apesar de ser quase impossível encontrar um leigo ou mesmo um especialista de saúde que afirmasse que o cigarro não causava câncer, os produtores de cigarros lutaram bravamente na justiça americana contra os processos indenizatórios de clientes prejudicados pelo fumo. O argumento básico era de que as pesquisas científicas não comprovavam esses malefícios.

O filme “O Informante”, do diretor Michael Mann, com Russell Crowe e Al Pacino, narra a história, baseada em fatos reais, de um ex-executivo da indústria do fumo americana que quebra o contrato de sigilo que os dirigentes dessas empresas são obrigados a assinar. Um suposto ato antiético (romper um contrato assinado) é, na verdade, o início de um grande processo de abertura e democratização das informações ao público em geral, no qual ficaria evidente que a indústria do fumo alterou resultados de pesquisas científicas que indicavam claramente a associação entre fumo e câncer de pulmão. A ética venceu o moralismo. No entanto, alguns argumentam que as pesadas indenizações pagas pela indústria do fumo americana não chegaram a sacudir os sólidos pilares financeiros dessas empresas e que, no final das contas, o impacto foi quase nulo em termos da sustentabilidade competitiva desse setor.

A partir do endurecimento da legislação contra o fumo nos países centrais (EUA e Europa Ocidental), as indústrias de cigarro passaram a voltar seus esforços de marketing para países em desenvolvimento, nos quais a legislação ainda é frouxa, tendo como público-alvo preferencial a juventude. As restrições contra o fumo avançam em todo o mundo e até mesmo países que sempre se caracterizaram por grande liberalidade e uma certa “cultura do prazer de fumar”, como a Espanha, começam a criar legislações pesadas sobre o tabagismo em lugares públicos.

Nessa nova fase de maior controle social sobre o tabaco, algumas empresas e marcas apelam para slogans como “a escolha é sua”. No entanto, a suposta liberdade de escolha é sempre relativa em uma sociedade de consumo de massa, publicidade agressiva e estímulo ao consumismo. A escolha nunca é somente do indivíduo, quando de bar em bar e padaria em padaria cartazes luminosos oferecem o prazer das tragadas, enquanto as fotos mostrando os horrores do fumo são sempre minúsculas e, muitas vezes, insistimos em não encará-las de frente. Não quero com isso negar a responsabilidade de quem decide fumar, mas dizer que ela não reside apenas no fumante. A idéia de liberdade de escolha do consumidor traz implícita a perspectiva de que os malefícios do fumo são de responsabilidade do próprio cliente. Essa é uma perspectiva polêmica, incorreta e distorcida da realidade. A responsabilidade empresarial envolve não apenas um elo da cadeia de produção e consumo, o consumidor, mas todos aqueles que participam das diferentes etapas de produção, distribuição, consumo e descarte do lixo gerado. Se isso fosse verdade, as indústrias de pneus, baterias e óleos lubrificantes, para citar algumas, não seriam responsáveis por todo o ciclo de vida dos produtos, ou seja, não só pela sua produção e distribuição, mas também pelo recolhimento e adequado tratamento dos produtos gastos e descartados.

Nessa perspectiva é que reside um dos graves problemas de irresponsabilidade social da indústria do fumo, que ficam encobertos pela névoa da discussão sobre os males da nicotina e do alcatrão à saúde humana. Não se trata de negar que esses malefícios são graves e exigem respostas ainda mais duras da sociedade. Os problemas decorrentes do fumo atingem não só fumantes diretos e indiretos, mas toda a sociedade, visto que quem financia os gastos públicos com tratamento de saúde e campanhas anti-tabagismo são os contribuintes de impostos. No entanto, é bastante cômodo para a indústria do fumo focar a discussão e a atenção social nos males do cigarro contra a saúde, pois, no final das contas, ela pode se proteger no argumento da livre consciência do consumidor em fumar ou na tentativa de desenvolvimento de novas tecnologias produtivas que gerem cigarros menos nocivos aos seres humanos.
A irresponsabilidade social e a insustentabilidade ambiental que a indústria do fumo não consegue encobrir vem do próprio modelo de negócio estabelecido por essas empresas em várias partes do mundo. A cadeia produtiva do fumo envolve em sua base milhares de pequenos agricultores em comunidades com baixíssima qualidade de vida. Os argumentos de que o fumo gera empregos, riquezas para pequenos produtores rurais, não agride tanto o meio ambiente e alimenta cofres públicos com impostos não conseguem fazer frente aos sérios problemas que se encontram logo na produção de tabaco.

As estratégias de gestão da cadeia de produção-distribuição-consumo de fumo relevam problemas gravíssimos como: 1 – monocultura de tabaco, destruindo a biodiversidade; 2 – monopsônios ou oligopsônios, ou seja, um único ou alguns poucos grandes compradores com pesado poder de barganha sobre milhares de pequenos produtores, resultando em preços de compra achatados; 3 – conseqüências sociais perversas sobre comunidades e pequenos produtores, tais como dependência de uma única atividade econômica na região, trabalho infantil, fome e miséria nas áreas plantadoras; 4 – graves problemas de lixo urbano e resíduos gerados pelo fumo desenfreado e mal-educado em áreas públicas (para muitos, já se tornou redundância dizer que fumantes são mal-educados, pois além das baforadas que afetam a todos, jogam “guimbas” em qualquer lugar); 6 – relação dúbia, mal comprovada e eticamente questionável entre impostos gerados pelo fumo e gastos com saúde pública no combate ao tabagismo e seus males.

Esses são problemas que os grandes impérios do fumo não conseguem encobrir e mostram que a sua irresponsabilidade socioambiental pode ser mais perversa do que os já muitos graves problemas com a saúde dos fumantes revelam para todos nós. A questão é que o foco apenas nos problemas de saúde pode levar a uma verdadeira cortina de fumaça, encobrindo e outros e tão graves males para além de uma tragada, que, ao contrário do que muitos dizem, nunca é uma “simples tragada”.

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. Entre Tragos e Baforadas: a cortina de fumaça que paira sobre a irresponsabilidade socioambiental da indústria do fumo. In: Circuito Notícias, Brumadinho, MG, abril/2007.

Cidadania em Migalhas?: as possibilidades e as armadilhas do voluntariado

Voluntariado é um fenômeno contemporâneo extremamente relevante, pois é resultado de várias tendências da vida em sociedade que tentam reverter o individualismo, a fragmentação e a destruição das comunidades e da própria vida humana no planeta. Brumadinho, como um entre os milhares de pequenos municípios no Brasil, sempre teve trabalho voluntário. Mas, agora, é que a grande mídia reverbera a idéia de voluntariado e muitos que sempre ajudaram os outros (ou o próximo, como se diz nos cultos religiosos), agora são chamados de voluntários e se identifiquem como esse papel social. Além disso, é típico de grandes empresas, sobretudo aquelas com atuação no mercado internacional, estimular (muitas vezes até em excesso, beirando a imposição ou obrigação) seus funcionários a prestar trabalho comunitário. O caso de nosso município não é diferente de muitos outros, sendo assim, é fundamental tentar compreender o que pode e o que não pode oferecer o trabalho voluntário.

Outros conceitos e tendências que estão relacionados ao voluntariado são Capital Social, Comunitarismo, Associativismo e Cidadania Ativa. Na verdade, solidariedade e laços fortes de associativismo sempre existiram ao longo da história da humanidade, no entanto, o conceito de voluntariado integra a idéia de solidariedade com a de ativismo ou pro-atividade na luta contra os problemas sociais e ambientais que afligem as sociedades. Os voluntários se caracterizam não apenas pela consciência dos problemas sócio-ambientais, mas atuam e contribuem, de diferentes formas, para a solução desses desafios, sem esperar necessariamente o suporte governamental ou empresarial privado.

Diferentes fatores levam os indivíduos a se dedicarem ao trabalho voluntário. É um grande equívoco imaginar que se trata apenas de uma "vontade desinteressada de ajudar". Existem ganhos afetivos, simbólicos, emocionais, materiais não-monetários e até profissionais para quem se torna voluntário. Esses ganhos e estímulos, em muitos casos, reforçam o comprometimento do voluntário com as atividades sociais e com as instituições nas quais atua. Em outros casos, esses ganhos vêm na frente do espírito de solidariedade, invertendo a equação que diz “ajudar os outros e acabar sendo ajudado” para a lógica “ajudar a mim mesmo, ajudando os outros”. Esse tipo de postura é comumente encontrado em alunos de graduação, interessados em adquirir experiência profissional e em trabalhadores que vêem no voluntariado uma boa forma de alcançar mais pontos na avaliação de desempenho da empresa e poder galgar postos mais elevados na hierarquia.

Infelizmente, há empresas que “obrigam” seus funcionários a fazer trabalho voluntário e, além disso e pior ainda, não os liberam no horário de trabalho, nem apóiam suas iniciativas sociais com recursos materiais e financeiros. No entanto, houve muitos avanços do Voluntariado Empresarial no cenário brasileiro, especialmente em Minas Gerais, devido a uma maior especialização e profissionalização das iniciativas de trabalho voluntário dentro das empresas. Chama-se de voluntariado empresarial as iniciativas de ação social de funcionários que são criadas, estimuladas e/ou apoiadas pelas empresas. O Núcleo de Cidadania Empresarial da FIEMG e as fundações empresariais vinculadas ao Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) são exemplos de grupos virtuosos de voluntariado empresarial. Um desses avanços, conquistados depois de várias tentativas de acerto, foi descentralizar a responsabilidade pelo gerenciamento dos programas de voluntariado da cúpula diretiva das empresas para os indivíduos mais envolvidos com a ação social. Em inúmeros casos, funcionários de nível operacional passaram a comandar os programas de voluntariado empresarial, além de contarem com um significativo apoio financeiro e material de suas empresas. Os programas se tornaram mais participativos, transparentes e com maior impacto social. Um grave problema é que  muitas empresas tentam seguir as líderes de mercado sem desenvolverem um compromisso efetivo com a transformação sócio-ambiental e sem desenvolverem capacidade gerencial para elevar os níveis de excelência de suas práticas de voluntariado.

Todos os dados indicam que o problema do voluntariado no Brasil não está ligado à quantidade de pessoas que atuam ou desejam atuar como voluntárias. As pesquisas sobre mobilização social, ativismo comunitário e consumo consciente têm indicado que os indivíduos têm se tornado cada vez mais preocupados e atuantes quanto aos problemas sócio-ambientais no Brasil. O desafio dos programas de voluntariado neste momento é avançar nos impactos sociais que podem gerar para a transformação da realidade brasileira e global. Ainda há muitas ações descontínuas, pouco efetivas e desprovidas de maior nível de conscientização cidadã sobre os problemas que afetam as sociedades. Toda ação social é sempre uma intervenção política, não no sentido de partidarismo ou politicagem, mas de “visão de mundo” negociada e compartilhada por um grupo de pessoas. Muitos voluntários ainda estão focados excessivamente na solução de problemas pontuais, como por exemplo, dar banho no idoso, e se envolvem muito pouco ou nada com os problemas estruturais do país, que estão relacionados às políticas públicas. Com isso, não se avança na implantação e cumprimento do Estatuto do Idoso, perpetuando-se a sua exclusão.

Falta avançar na cultura democrática, promovendo decisões participativas, transparência e controle social de organizações não-governamentais, governos e empresas. Sem isso, toda a movimentação social que o voluntariado brasileiro tem gerado pode não resultar em impactos transformadores de longo-prazo. Assim, o trabalho voluntário pode acabar criando uma forma mais perversa de cidadania, a “Cidadania em Migalhas”, na qual se sobressaem as iniciativas dos indivíduos em tapar “buracos” deixados pela inoperância e descaso do Estado e das empresas,  oferecendo apenas serviços sócio-ambientais concretos e localizados (creches, parques,  atividades ambientais, ...), mas sem lutar por causas sócio-ambientais mais amplas e estruturais do Brasil e do mundo, que envolvam mobilização política, discussão comunitária e mudança de orientação de voto.

É muito comum as pessoas quererem ajudar, mas não saberem como fazê-lo. Em muitos casos, esse argumento é uma justificativa para o comodismo. Em outros casos, falta informação e conhecimento sobre a dinâmica dos problemas sociais. Por outro lado, o ativismo social precipitado pode reproduzir os problemas históricos e trágicos da intervenção social brasileira: assistencialismo, paternalismo, personalismo, centralismo tecnocrático, descontinuidade, clientelismo, mal uso de recursos e baixíssimo impacto social. Para aqueles que querem dar os primeiros passos como voluntários, é interessante não esquecer de: 1- dialogar de igual para igual com a comunidade, sem impor seus desejos, visões e vontades àqueles que vão ser auxiliados; 2 – compreender que os problemas sociais são complexos e suas soluções não se dão na mesma velocidade e dinâmica dos negócios empresariais; 3 - desenvolver sempre pequenas ações continuadas, mas crescentes, no lugar de grandes intervenções esporádicas na realidade social; 4 – somar força a outros projetos e pessoas que já atuam na área ou invés de criar algo novo e superposto às atividades já existentes; 5 – transformar sua postura e prática no cotidiano e não apenas ser solidário no momento de ação voluntária; 6 – não se restringir a fazer a sua parte, mas cobrar dos responsáveis a sua parcela de contribuição para a erradicação dos problemas sócio-ambientais, sobretudo do governo e das empresas. Agora, fica a clássica pergunta do filme Ben Hur, quo vadis? O que você vai fazer por Brumadinho, o Brasil e o mundo?

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. Cidadania em Migalhas?: possibilidades e armadilhas do trabalho voluntário. In: <strong>Circuito Notícias</strong>. Brumadinho, MG: março/2007.

A Estudante Desesperada e a Serendipidade

Costumo abrir minha primeira aula com uma pergunta que cansei de ouvir dos alunos e também nas histórias contadas pelos professores nos intervalos para o café: “Professor, o senhor não trabalha, não?! Apenas dá aulas?!”. Antes que alguém me venha com essa lengalenga novamente, já solto a pergunta e a resposta de uma só vez: “Sim, meus caros alunos, apenas dou aulas. Sou um sobrevivente de uma espécie em extinção: os vagabundos acadêmicos. Não gosto de trabalhar, apenas de lecionar, pesquisar, escrever textos e dar palestras. Afinal, trabalhar é muito chato e cansativo!”.

Essa indagação, que insiste em se repetir semestre a semestre, turma a turma, mesmo mudando as escolas, os alunos, o tipo de curso (extensão, graduação ou pós-graduação) e a área de formação, diz muito a respeito do que se transformou a educação em nosso país. Depois de várias eleições, a educação parece agora ter assumido o lugar central das agendas dos candidatos à presidência da república. Tenho sérias desconfianças acerca desse repentino interesse pela formação de nosso povo, justamente às vésperas do pleito eleitoral e, mais ainda, em um momento no qual as políticas sociais, de segurança pública, de saúde, de desenvolvimento econômico e de proteção ambiental mostram claros sinais da tradicional combinação tupiniquim de ineficiência com descaso político, incompetência e falta de criatividade. Esperar tudo da formação e da cultura de um povo, ainda que esses sejam aspectos centrais de sociedades mais jutas e igualitárias, é esperar muito da educação, que por si só não mudará o Brasil. Novamente surge o paradoxo: a causa é também a solução milagrosa de todos os problemas nacionais.

Não vou discutir o descaso com as condições de trabalho dos professores que, se já são ruins no ensino superior, são vergonhosas nos níveis de ensino anteriores. Nesse ponto, todos os envolvidos têm alguma razão e existem muitas irracionalidades. É assustador constatar que muitos de nossos educadores não conseguem sequer “consumir” a cultura de maneira compatível com importante papel que desempenham como formadores das gerações presentes e futuras. No entanto, as péssimas condições salariais, de infra-estrutura e de metodologia de trabalho não podem servir de desculpa para o comodismo, a falta de entusiasmo e a incompetência, que muitos docentes desenvolvem com maestria a cada dia, mais e mais, dentro das salas de aula. Porém, vou me concentrar em um universo mais específico e reduzido, porém não menos complexo: a sala de aula e o processo de ensino-aprendizagem.

Vivemos em uma época em que várias esferas da vida em sociedade se transformaram em mercadoria. Não é estranho ouvir dizer que o aluno é cliente do ensino, principalmente dos cursos superiores. Infelizmente, se já não traz estranheza aos ouvidos esse outro despropósito (o aluno como cliente), é importante que continuemos nos indignando ao nos defrontarmos com essa idéia, que não passa também de uma lengalenga. Se há um cliente no ensino, esse cliente é a sociedade, que outorgou às instituições públicas e privadas de ensino, através do Estado, o direito e a honrosa tarefa de formar seus cidadãos e futuros profissionais. Isso não quer dizer que o desrespeito, a falta de qualidade e o autoritarismo devem se fazer presentes nas relações que o aluno estabelece tanto com a escola, quanto com os professores. Nada justifica o autoritarismo com que muitos professores tratam os alunos, bem como o descaso e o desrespeito de muitos alunos para com seus mestres no dia-a-dia.

Mas o ponto mais importante nessa discussão é o que vem implícito na idéia de aluno-cliente. Atrás dessa concepção se escondem as falsas verdades de que educação é uma mercadoria ou serviço como outro qualquer e que o seu “consumo” deve se dar dentro dos padrões de qualidade de qualquer atividade mercantil. Dentro dessa perspectiva, o processo de ensino-aprendizagem tem que ser sempre divertido, interessante, veloz, lúdico, animado, etc., etc., etc. A lista de boas qualidades não acabaria nunca e, na ânsia por agradar a “gregos e troianos” dentro das salas de aula, os educadores acabam perdendo o próprio sentido do processo educativo, se tornando reféns de seus clientes: os alunos.

Educação não tem que ser apenas um processo divertido e lúdico, como muitos pedagogos pseudomodernos (geralmente comportamentalistas) insistem em repetir a cada reunião de professores. Educação também se faz com “sangue, suor e lágrimas”. Tal qual a obra de arte, que pode tanto deliciar os sentidos quanto causar mal-estar e incômodo, a educação realmente transformadora tem como papel central levar à formação crítica e autônoma dos indivíduos. Não fosse assim, trabalhos dos grandes mestres da pintura, para dar exemplos apenas em um dos campos da cultura, deveriam ser esquecidos. Picasso e outros tantos seriam figuras patéticas de um passado a ser sepultado em Guernica. Mas as coisas não são e não podem ser assim. Tal qual a arte que traz estranhamento, dúvida, perplexidade e indignação, bem como vontade de superar esse labirinto, a educação tem também como papel central levar o aluno a se encontrar consigo mesmo, encarando seus medos, fantasmas e dúvidas. Convenhamos, isso não é nada agradável e “gostoso”, mas nem por isso deixa de ser fundamental para se aprender a viver. Caso contrário, tem-se paternalismo educacional travestido de “foco no cliente”. Tal qual a arte, a educação imita a vida. Se formos pais protetores em excesso, criamos “filhinhos de papai”, como costumamos dizer, incapazes de viver a vida em sua plenitude tanto nas boas horas, quanto nos momentos difíceis.

Há algum tempo recebi uma mensagem de uma aluna dizendo que, quanto mais estudava, mais se sentia perdida e mais percebia que nada sabia. Respondi a ela: “você está aprendendo e muito, só não se deu conta disso ainda”. Aprendizagem requer dedicação, concentração e horas de meditação e estudo; coisas que no nosso mundo cheio de informação e sedução de cores e tons exige do aluno muita abnegação. Mas, depois de um tempo, nos acostumamos com o “fardo” de aprender e, como que repentinamente, o mundo se abre com novas cores, tons, cheiros e sabores, muito mais vibrantes do que os anteriores. O mundo não mudou, nosso olhar se transformou. Os estudiosos chamam de Serendipidade a todo esse processo de descobertas inusitadas: a capacidade de encontrar novas respostas através de formas aparentemente inesperadas e não programadas, que só o olhar calejado pelo estudo e pela vida podem oferecer. A cada aula tento renovar minha crença na perspectiva de que “toda forma de educar vale a pena”, desde que leve à Serendipidade. 

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. A estudante desesperada e a serendipidade. In: Circuito Notícias, Brumadinho, p. 2 - 2,  30 ago. 2006.

Céu, Terra e Inferno Políticos

“Existem mais coisas entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia pode supor!”

Essa epígrafe shakspeariana já foi usada e abusada por um cem número de pessoas, com um cem número de intenções. Ainda assim, acho que ela retrata bem o momento político em que nos encontramos no país e, em especial, na cidade de Brumadinho.

Para muitos, os recentes escândalos políticos da base aliada do governo são a pura prova que a política é “briga de cachorro grande”, marcada por lutas e confrontos que exigem posturas e práticas pouco éticas. O jogo político assim o seria. Ao cidadão comum, que do nível da terra observa a luta entre os titãs políticos, só caberia a contemplação, a submissão e a aceitação desses esquemas.

Os partidários dessa tese, não raras as vezes, recorrem a Maquiavel, na tentativa de legitimar uma prática política nefasta. No jogo do poder não haveria espaço para a inocência. Na verdade, trata-se de uma grande deturpação das idéias do pensador italiano. O governante para Maquiavel sabe se valer da força e jogar duro na luta política, mas em consonância com as aspirações populares e o bem para o “espaço público”. Tanto que Renato Janine Ribeiro, na minha opinião o maior filósofo brasileiro contemporâneo, insiste em destacar o caráter democrático dos escritos maquiavelianos.

Para outros, e nesses outros eu me incluo, a frase de Shakspeare serve para nos alertar que muito ainda temos que caminhar em direção à transparência do funcionamento da política no nosso país. Quando olhamos para a realidade de nosso município, esse abismo entre a luta dos “deuses políticos” e a plebe com os pés ficados na terra parece ainda maior e assustador.

Parte considerável da mídia, ao fazer a cobertura desses episódios políticos, tem recorrido ao caráter pessoal, à trajetória de vida e às habilidades políticas de Lula como legitimadores de sua permanência na presidência. Não há como negar que a presença de Lula no poder tem um impacto decisivo na ruptura simbólica e ideológica de uma maneira de enxergar a política, que no Brasil sempre colocou o pobre no lugar de desempoderado. Pobreza material, na maioria das vezes no nosso país, vem acompanhada de pobreza política. Mas não precisa, nem deve ser assim.

No entanto, depositar em Lula todas as esperanças de superação dessa crise é, paradoxalmente, reforçar a mesma lógica que teima em insistir que uma elite deve defender os interesses dos pobres. Teorias da “vanguarda proletária” e da “expertise”, ou seja, dos grandes líderes comandando a massa, remontam ao início do século XX e resultaram, dentre várias experiências, no centralismo soviético, no autoritarismo chinês ou mesmo no elitismo político da Europa capitalista.

Weber, importante sociólogo alemão do início do século XX, enxergava na figura do líder carismático, tal qual Lula hoje se apresenta para a maioria do povo brasileiro, a saída para os descontroles de uma máquina pública fechada em si mesma e distante dos interesses do povo. Não se deve perder de vista a importância de um líder visionário para mudar os rumos das estruturas corrompidas e caducas. No entanto, vivemos em um país e uma cidade nos quais a personalidade dos políticos sempre virou personalismo. Um país e uma cidade nos quais o direito virou favor, o dever se transformou em punição dos adversários políticos e a transparência da máquina pública em mero formalismo contábil, quando existe.

Precisamos sim, de lideranças fortes e renovadas, capazes de superar a crise política que se apresenta. Mas precisamos também de novas e mais dinâmicas formas de organização e participação popular na gestão pública. Não partilho a visão pessimista de muitos, que retomando o cientista político alemão Robert Michells, crêem que todos os movimentos sociais um dia acabam cedendo à “Lei de Ferro das Oligarquias”: viram máquinas políticas ensimesmadas, fechadas e distantes do povo. Creio, pelo contrário, que as experiências democráticas construídas no país nos últimos anos reinventaram cotidianamente novas formas de superar o dilema michelliano.

No entanto, nuvens tenobrosas se aglomeram em nosso horizonte. Uma recente pesquisa internacional mostrou que na América Latina mais de 48% da população não se importaria com o retorno da ditadura, desde que as condições de vida avançassem. Ainda que metodologicamente a pesquisa esteja bastante equivocada, pois compara “alhos com bugalhos” ao opor democracia à qualidade de vida, quando o oposto de democracia é a ditadura, os resultados não podem passar despercebidos. Esses resultados são decisivos, sobretudo quando se pensa no futuro político de Brumadinho.
Os recentes escandâlos políticos nacionais podem parecer, para muitos dos brumadinenses, episódios distantes do cotidiano da cidade, com pouca ou nenhuma repercussão mais relevante em nossas vidas. Faço minha a crença do jornalista Gilberto Dimenstein. Para ele, a política se constrói no nível local, nas cidades brasileiras. E é nelas, nos últimos anos, que grande parte dos avanços políticos se fizeram no país: conselhos municipais, orçamentos participativos, dentre inúmeros outros esquemas de controle social da máquina pública, são exemplos vivos disso.

Mas, ainda assim, muitos em Brumadinho teimam em apedrejar a “viúva adúltera petista”, sem olhar para os seus próprios pés. A história política fez do brasileiro um indivíduo capaz de responsabilizar a tudo e a todos pelas agruras que vive no seu sofrido dia-a-dia. Essa política que aí está foi construída por nós e por nós, sociedade civil organizada, precisa ser radicalmente modificada. Estamos dispostos, em Brumadinho, a abrir mão de nossa cômoda posição de expectadores e não tolerarmos mais mandos e desmandos na política?

Por onde andam as jovens lideranças no nosso país e na nossa cidade? Quais os impactos de toda a briga política em Brasília sobre o município? Alguém já parou para pensar sobre como os esquemas corruptos de Brasília se manifestam ou impactam nossa cidade?

Enquanto não pararmos de lamentar o inferno político que vivemos e não percebermos que o céu dos “deuses políticos” municipais está ao alcance da nossa mão, da mão da sociedade civil organizada e cidadã, continuaremos a viver o pesadelo do eterno retorno. Mudanças que nada transformam, como cinicamente o príncipe Tancredi, no livro “O Leopardo”, de Giuseppe Lampedusa, coloca com crueldade: “é preciso mudar se quisermos que tudo siga como está”. Não estamos na Itália revolucionária de Tancredi, mas a evolução política necessária não está nas mãos dos poderosos de sempre, está nas mãos do povo de Brumadinho.

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. Céu, Terra e Inferno Políticos. In: Circuito Notícias. Brumadinho: Circuito Notícias, ano 12, edição 140, 04/2006, p. 2.

Mulheres Voluntárias: Razões para celebrar, desafios a enfrentar

Março é marcado não só pelo fim do carnaval, mas também pela comemoração do Dia Internacional da Mulher. Vitórias, conquistas e lutas a parte, é também o tempo para se repensar o avanço das mulheres na vida social contemporânea. Um dos aspectos mais significativos desse avanço é a presença maciça de mulheres à frente de organizações não-governamentais (ONGs) e do trabalho voluntário no Brasil e no mundo. Especialmente no caso brasileiro, as mulheres são maioria absoluta entre os voluntários. 

Quando se fala de trabalho social estamos acostumados a pensar em instituições filantrópicas, marcadas pelo caráter assistencialista de suas práticas e pelo carinho que transborda da própria forma como essas mulheres tratam daqueles que são assistidos pelos projetos sociais.

Mas uma nova forma de trabalho voluntário feminino também tem ganhado muito espaço no Brasil das últimas décadas. São executivas de grandes e médias empresas, que se dedicam a apoiar ONGs, emprestando seu talento gerencial para diferentes tarefas que desafiam a sobrevivências dessas instituições.  

Minha experiência como professor e pesquisador de Ética nos Negócios mostra que quando se indaga às pessoas sobre a posição das mulheres no mercado de trabalho, parcela significativa afirma que o sexo feminino alcançou igualdade de condições com os homens. Tenho ouvido com freqüência que as mulheres, quando chegam ao poder, são mais produtivas, efetivas, dedicadas e profissionais que os homens. 

Superdimensionar as qualidades das mulheres no trabalho não passa de uma forma invertida de dar vazão ao preconceito. Conhecemos bem essa realidade quando pensamos nos negros que alcançaram posições de destaque em nossa sociedade. Quantas vezes o brasileiro não se cansa de dizer que Pelé é extraordinário. Claro, é muito difícil para uma sociedade preconceituosa reconhecer seu próprio preconceito. Negros e mulheres, quando alcançam lugares de destaque, o fazem porque são excepcionais.  

Junto com essa verdadeira mitificação da mulher no mercado de trabalho, aparecem objeções ao que muitos imaginam ser um desvio da boa postura feminina: mulheres que são duras e severas nas decisões, competitivas, focadas excessivamente no trabalho e que acabam se distanciando da imagem doce que o imaginário machista criou em torno da mulher. Ainda assim, essas mulheres “duras na queda” continuam exercendo atividades voluntárias e encontrando um espaço semanal na apertada jornada de trabalho, que não raras as vezes excede as quatorze horas diárias. Algo na vida dessas mulheres executivas acaba ficando para trás, pois conciliar extensas jornadas de trabalho com trabalho doméstico e atividade voluntária não é o que poderíamos chamar de uma tarefa simples. 

No entanto, se a vida das executivas não é exatamente um bom exemplo para se comemorar as conquistas femininas ao longo dos últimos anos, o cotidiano das mulheres pobres vem reforçar a idéia de que muito ainda se tem para avançar na igualdade entre sexos nos países em desenvolvimento, especialmente no Brasil. 

Há menos de duas décadas atrás era prática comum em uma grande empresa sediada em Contagem ter apenas mulheres trabalhando na produção, enquanto todas as gerências, mesmo as de menor escalão, eram ocupadas por homens. Receio reconhecer que essa realidade empresarial era e ainda é muito comum entre nossas empresas e até mesmo no serviço público. Um estudo recente do governo federal mostra que as mulheres passaram a ocupar muito mais cargos gerenciais na máquina pública, mas a maioria absoluta delas nos níveis inferiores da hierarquia organizacional.

Realidade mais dura ainda diz respeito à vida das mulheres com empregos precários e desempregadas. Para elas só resta a alternativa do trabalho voluntário. Antes de uma opção, como no caso das executivas, é uma das poucas chances de sobreviver à dura realidade colocada pela exclusão social e econômica. Cooperativas de trabalhadoras, ONGs e projetos sócio-culturais liderados por mulheres se multiplicam nos locais onde o Estado pouco faz pelos pobres.

Essas mulheres, de rosto sofrido, tão bem retratadas em várias fotos do brasileiro Sebastião Salgado, têm realizado uma revolução silenciosa e muito mais efetiva para a igualdade entre sexos do que o trabalho das executivas. Geralmente, são elas as chefes do que se chama de “família ampliada” e cuidam do orçamento doméstico com muito mais competência do que os homens, que passaram por suas vidas e as abandonaram. Para quem duvida disso, é importante conhecer a experiência dos bancos populares na Índia, que só emprestam dinheiro mediante a assinatura das mulheres.

Tais mulheres indianas lideram sozinhas suas famílias, formadas por filhos de diferentes pais e sobrinhos, netos e filhos de amigas, que vieram morar em suas casas. A experiência delas conseguiu mostrar ao mundo que mulheres pobres, mesmo vivendo em condições sociais desfavoráveis, podem sair da pobreza honrando seus compromissos, sem tornar inviável aos bancos emprestar com baixíssimas taxas de juros. Talvez o sistema bancário brasileiro precise aprender mais com as mulheres pobres da Índia do que com as grandes executivas, que contratam com cada vez mais freqüência.

Todas essas histórias fazem parte do mosaico da luta da mulher por um lugar mais igualitário na sociedade. Diante dos avanços do sexo feminino na nossa sociedade, hoje parece difícil acreditar que a mulher, há menos de cem anos atrás, não tinha direito ao voto em vários países. Tomara que em um futuro não tão distante tenhamos dificuldade em acreditar que para as mulheres pobres de nossa época não bastou votar, foi preciso escolher a única alternativa disponível para sair da miséria: o trabalho voluntário.
  
Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. Mulheres Voluntárias: razões para celebrar, desafios a enfrentar. In: Circuito Notícias. Brumadinho: Circuito Notícias, ano 12, edição 139, 04/2006, p. 2.

O medo nosso de cada dia

Os acontecimentos recentes na segurança pública brasileira mobilizaram as pessoas, as instituições, as organizações não-governamentais e a mídia, em especial, de forma bastante intensa. Ver o centro econômico brasileiro em ebulição, como um caldeirão de violência e criminalidade, deixou a todos atônitos e assustados.

O medo, como qualquer outro sentimento humano, tem seu lado positivo e negativo. Os que pensam que a hesitação, o receio e a dúvida são fraquezas dos indivíduos, e todos que deveriam adotar no seu lugar posturas mais decisivas e certeiras em suas vidas, podem estar equivocados. Não só a psicologia, mas também as ciências naturais, sobretudo a biologia, oferecem um rico arsenal de conceitos e teorias que permitem se entender a importância do medo para a sobrevivência das espécies e para o convívio em sociedade. O medo pode levar ao imobilismo, mas pode também permitir ao homem refletir melhor sobre todas as conseqüências de seus atos e decisões, já dizia o prêmio Nobel de economia Herbert Simon.

Mas, infelizmente, o medo da criminalidade, que voltou mais forte ainda com a onda de violência por todo o Brasil, tem levado autoridades, instituições, profissionais da mídia e indivíduos à fúria, à posturas impensadas e, quando não, ao imobilismo. O medo, na medida em que transcende a dimensão dos sentimentos individuais e alcança a dinâmica da vida em sociedade, ou seja, da coletividade, pode resultar em sérios desafios para a construção de uma sociedade mais justa, eqüitativa e também segura. Nos recentes episódios de violência e criminalidade generalizada multiplicaram-se opiniões e apelos para uma maior rigidez das autoridades policiais e implicitamente, ou mesmo explicitamente, o apoio a medidas que afrontam os direitos humanos.

Direitos humanos, para muitos de nossa sociedade, é uma palavra que deveria se abolida de nosso repertório social quanto se trata de criminosos. Essa é uma postura que afronta a ética e as virtudes cidadãs. Mas como muitos dos que defendem a morte ou o tratamento cruel aos presos radicalizam suas posições, não adianta relembrar que a vida tem um valor central e que não se pode abrir mão dela sem maiores conseqüências. É preciso dialogar em outras bases com os que defendem a cadeira elétrica para os bandidos, caso contrário não se avança na compreensão dos problemas de criminalidade no Brasil e nas possíveis soluções para a verdadeira guerrilha urbana em que se vive.

Nos países nos quais a pena de morte foi adotada as taxas de criminalidade não se reduziram. Em outros, a taxa de criminalidade até chegou a subir. Portanto, caso não se dê valor a vida dos criminosos, pois “bandido tem que morrer mesmo”, deve-se pensar mais seriamente como conter a criminalidade com eficiência. A pena capital não aparece como uma alternativa eficaz para isso.

O problema da segurança pública precisa ser entendido como um desafio para toda a sociedade brasileira e para diferentes instituições públicas. Não basta equipar melhor a política e exigir dela mais rigidez e violência no combate a criminalidade. Caso a pena de morte fosse adotada no país, permanecendo as mesmas condições de gestão das instituições públicas, o mesmo sistema de trabalho dos policiais e o mesmo sistema judiciário, aqueles que morreriam seriam os criminosos menos poderosos, organizados e perigosos para a sociedade. Os mais perigosos, e essa periculosidade está também ligada ao fato de poderem se articular em grupos, quadrilhas e facções, seriam os que sobreviveriam ao sistema da pena de morte.

Atualmente, acumulam-se ineficiências em diferentes etapas do sistema de apuração e punição de crimes na sociedade. A polícia não consegue investigar todos os crimes. Dos crimes apurados, alguns se consegue encaminhar ao tribunal, outros não. Dos crimes encaminhados, alguns levam décadas para serem julgados. Daqueles que são julgados no tribunal, vários são absolvidos, principalmente quando se pode pagar bons advogados. Finalmente, vão para a cadeia os mais fracos. Lá dentro, aqueles que não passam a fazer parte de algum grupo criminoso enfrentam sérias dificuldades para sobreviver. No final, permanece na cadeia o pobre e sem recursos para a defesa. É ele que irá para a cadeira elétrica.

Outro grande mito por detrás da criminalidade está ligado à idéia, muito difundida até mesmo pelos defensores dos Direitos Humanos, de que o banditismo está ligado à falta de oportunidades de emprego e renda para a população mais pobre. O Brasil possui alguns dos centros de estudos sobre criminalidade mais avançados e reconhecidos internacionalmente. Antônio Paixão, Cláudio Beato e o atual subsecretário de segurança pública de Minas Gerais, o professor Luiz Flávio Sapori são alguns do que defendem a idéia de que o avanço do crime não está ligado essencialmente ao desenvolvimento econômico. Uma prova contundente disso é que nos países nos quais a economia cresce, aumenta também a criminalidade. Paises ricos e com economias sólidas também padecem com altos índices de criminalidade. Além disso, como explicar que é crescente o número de criminosos oriundos de famílias de classe média, que teoricamente teriam boas oportunidades de acesso ao emprego e renda?

Na verdade, a criminalidade está ligada à sensação de impunidade e a vida em centros urbanos. Mesmo que se gerassem emprego e renda para todos os jovens e adolescentes em situação de risco social, como competir com o tráfico de drogas, que paga dez vezes mais que o salário mínimo pago aos “office boys” dos escritórios? Além disso, pertencer ao tráfico traz status social e reforça a imagem de masculinidade e poder junto a comunidade. Para complicar, muitos desses jovens vêm de famílias desagregadas, incapazes de competir com a sedução do crime organizado e lhes incutir valores para o exercício da cidadania.

É cômodo demais para as classes alta e média (eu me incluo na classe média), ficar sentada assistindo televisão, se assustando com os crimes e pregando a morte e a punição dolorosa para os bandidos. Não raras as vezes essas mesmas classes abastadas são tolerantes com seus filhos consumindo drogas, batendo pegas de carro e desrespeitando uma série de leis. No Brasil de hoje, a impunidade virou certeza para muitos. Os pobres que recorrem à criminalidade só reproduzem a sensação que podem tudo fazer, visto que  políticos, empresários poderosos e os grupos abastados da sociedade lhe ensinam, com seus exemplos de vida no dia-a-dia, que a punição pelos crimes e desvios quase nunca acontece.

Para aqueles que ainda não se convenceram desses argumentos, cabe destacar a política de “tolerância zero” implantada pela prefeitura de Nova Yorque. Com ela, a punição a todo e qualquer crime, cometido seja pelo “colarinho branco” ou pelo “ladrão de galinha” passou a ser uma certeza para muitos, reduzindo a sensação de que se vive em um mundo sem regras, leis e códigos de vida em comunidade. Além disso, a “tolerância zero” foi acompanhada de uma série de políticas sociais, capazes de mudar as expectativas de vida de muitos jovens de famílias pobres.

O mar de criminalidade da cidade americana se transformou hoje na certeza que basta apenas esforço, competência e boas idéias para se superar os problemas de criminalidade. Nossas instituições públicas, nossas organizações da sociedade civil e nós mesmos estamos preparados para fazer isso, para fazer a nossa parte? Ou será que vamos preferir a posição cômoda de dar vazão a nossos medos e fazer a fúria dar respostas à criminalidade?

Para quem quiser se aprofundar nesse assunto, é interessante ler não só o recente livro de Luiz Eduardo Soares e MV Bill (“Cabeça de Porco”), mas o excelente “Meu Casaco de General” da editora Companhia das Letras, escrito por Soares. Para os que preferem assistir documentários a ler, o premiado “Retratos de uma guerra particular” é essencial. Diferentemente de “Falcões”, exibido no Fantástico, esse documentário mostra todos os envolvidos com a criminalidade (bandidos, pessoas da comunidade, policiais, vítimas, autoridades, ...), desnudando os dramas e tramas de uma sociedade que cada vez mais vive sob a sombra do medo e parece atônita, em vez de dar respostas contundentes contra a criminalidade.

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. O medo nosso de cada dia. In: Circuito Notícias. Brumadinho: Circuito Notícias, ano 12, edição 143, 31/05/2006, p. 3.

Canibais com Garfo e Faca: a natureza cada vez mais como meio e cada vez menos como ambiente

O descompasso entre o discurso e a prática não é uma peculiaridade dos tempos atuais. Desde a Grécia antiga e até mesmo antes dela, já se discutiam os tramas e dramas do discurso político. Nem sempre o discurso deixa que se revelem as segundas intenções por detrás da fala. Outras tantas vezes, uma análise atenta do discurso permite descortinar intenções ocultas, que infelizmente, revelam-se politicamente incorretas.

Meio Ambiente, sustentabilidade e proteção da natureza viraram idéias-força bastante difundidas atualmente e incorporadas por um número significativo de atores sociais, com interesses e posturas ambientais variadas e, até mesmo, opostas. Do radicalismo da organização não-governamental Deep Ecology (Ecologia Profunda) à diretoria de grandes empresas, todos, em uníssono, são a favor do meio ambiente. Uns dizendo que toda e qualquer atividade empresarial destrói o meio ambiente e outros afirmando que é possível se avançar em direção ao chamado “capitalismo ecológico”.

Para os otimistas isso é sinal de convergência em torno de um tema fundamental para a sobrevivência de todo o planeta, inclusive dos seres humanos: a proteção ambiental. Mas o otimismo do discurso pode encobrir um pessimismo profundo na prática. Discurso e prática, quando se fala de Responsabilidade Sócio-Ambiental de Empresas, podem caminhar bem descompassados. Infelizmente, fica sempre a desconfiança de que a prática caminha a passos bem mais lentos que o discurso. Trocando em miúdos, muita propaganda empresarial e pouca ação efetiva. Ou ainda, muito mais recursos gastos em publicidade do que na proteção ambiental em si. Prova disso são os balanços sociais de empresas, que muitas vezes encobrem essa relação entre gastos com divulgação da empresa e investimentos em meio ambiente.

Um dos grandes desafios da incorporação da agenda ambiental por parte das empresas reside no caráter instrumental que marca as relações no espaço interno das organizações. As empresas privadas, como toda e qualquer organização, são regidas por um certo grau de instrumentalidade. O que significa isso? Significa orientar ações, posturas e formas de explicar o mundo por uma racionalidade (um raciocínio) centrado na lógica de meios para atingir fins, de recursos para atingir objetivos. Sendo mais claro: no ambiente empresarial sempre se pensa nas pessoas e nos recursos disponíveis (inclusive a natureza) como meios para se atingir os objetivos propostos; como peças de um jogo de estratégia no qual o objetivo é se alcançar o máximo resultado. A maioria das relações que se estabelecem no espaço interno das empresas são marcadas por essa instrumentalidade. Por exemplo, investe-se em qualidade de vida no trabalho e em melhores salários porque se aprimora as condições de vida do empregado, mas sobretudo porque empregados felizes e satisfeitos com a empresa são mais produtivos, gerando maior lucratividade.

Como bem já lembrava Kant, nos empreendimentos empresariais os valores, a moral e a própria ética podem se tornar um mero artifício para o alcance de metas. O filósofo alemão cita o exemplo do comerciante que agradava seus clientes não porque acreditava no valor maior de se ter bons amigos, mas sim porque se preocupava em não perder fregueses para a concorrência.

Alguém pode pensar: mas tudo na vida envolve um certo grau de interesse, mesmo na esfera pessoal de cada indivíduo! Correto, mas o problema é que o discurso da máxima eficiência e competitividade, que domina hoje o ambiente de trabalho nas empresas, faz ampliar o grau de instrumentalidade das relações, em detrimento da adesão aos valores por si mesmos. Os interesses passam a vir antes e a sufocar o compromisso com os valores.

A adesão das empresas a valores sócio-ambientais e a uma moral de defesa do meio ambiente pode se dar apenas como um mero recurso para reduzir a pressão de governos, comunidades, consumidores e até de acionistas (donos) sobre as próprias empresas. Afinal, a degradação do meio ambiente está se tornando, a cada dia mais, um mal negócio para as empresas. Multas, embargos legais, boicote de consumidores, manifestações de comunidades e várias outras formas de pressionar as empresas têm se tornado uma dor de cabeça para os executivos, até mesmo das grandes corporações multinacionais. Shell, McDonalds, Monsanto e Wall Mart são apenas alguns dos inúmeros exemplos de empresas transnacionais poderosas que tiveram que se curvar ao também poderoso poder de fogo de organizações não-governamentais e comunidades.

No final das contas, quando a adesão aos valores ambientais é feita meramente de forma instrumental, o forte apelo para que o homem seja entendido não como um ser exótico ao meio ambiente, mas como parte integrante dele é jogado por terra. Não se protege a natureza porque isso é algo correto ou necessário por si só, mas porque ajuda a alcançar um outro objetivo. Não se protege a vida de todos os seres vivos não-humanos porque, como viventes, eles têm direito à vida como qualquer um de nós. Protege-se a natureza para atingir uma meta maior: perpetuar a empresa e assegurar que continue dando lucros.
No caso brasileiro o cenário é mais dramático ainda, pois os objetivos empresariais ainda continuam muito focados no lucro de curtíssimo-prazo. Mas agora, um lucro menos selvagem. Como diz John Elkington, as empresas continuam a ser canibais, mas agora “Canibais com Garfo e Faca”. Aliás, esse é o título de seu interessante livro, publicado pela editora Campus.

Apesar de tudo, continuo fazendo muita força para me colocar no grupo dos otimistas. Acho que depois de todo esse “oba-oba” das empresas em torno da Responsabilidade Sócio-Ambiental, as comunidades, os consumidores e os cidadãos vão começar a despertar para o fato de que, para se proteger de maneira consistente (ou se quiserem, de maneira sustentável) o meio ambiente será preciso ir além da racionalidade instrumental. Nesse dia, o meio ambiente voltará a ser mais ambiente e menos meio. Atualmente, desconfio que ele é visto pelas empresas muito mais como um meio para se reduzir a pressão das comunidades sobre suas atividades produtivas e assegurar seus lucros, do que como o ambiente que nos cerca, dá sentido à nossa vida e é essencial para nossa sobrevivência.

Publicação original: TEODÓSIO, A. S. S. Canibais com garfo e faca: a natureza cada vez mais como meio e cada vez menos como ambiente. In: Circuito Notícias. Brumadinho: Circuito Notícias, ano 12, edição 142, 04/2006, p. 10.